Bom dia, Comunidade

5 de Junho de 2007

Marisa Monte

Confesso que a princípio, fiquei apreensivo. Estava tudo escuro. Ela sussurrava coisas como “não se perca ao entrar no meu infinito particular”. Embora no Japão, entrei sem tirar os sapatos. E, me perdoem a indiscrição, mas tenho de falar: o infinito  particular da Marisa Monte é bem jeitosinho. Sim, claro que estou falando do show realizado em Tokyo, 30 de maio. Foi o último dos shows realizados no Japão.

Antes um parenteses. Muito artista brasileiro fala em turnê no Japão, mas não esclarece se vai se apresentar aos brasileiros que moram aqui ou se já tem algum reconhecimento do público japonês. Marisa Monte pode se gabar de atingir os dois grupos. Os shows de Nagoya, conta uma amiga, foram dominados pelos brasileiros. Já nos de Tokyo, os japoneses eram maioria. Mas era bem fácil reconhecer os brasileiros, mais participativos - alguns japoneses diriam barulhentos. Em todo caso, é bem engraçado como os japoneses vão se contaminando pela energia conforme o show vai evoluindo.   

Nas primeiras músicas, bocejei um pouco. Marisa passa todo o tempo sentada. Quando não tem um violão ou uma gaita nas mãos, agita os braços daquele jeito so ela sabe. De resto, tudo dentro das expectativas: uma banda competentíssima, aquele capricho discreto na cenografia e alguma interação com o público (quase sempre em inglês).

Mas, lá pela metade, me surpreendi. Sério. Não imaginava que a mulher dançava. Rolou até um momento Ivete Sangalo (ok, tô exagerando)  quando Marisa convidou a platéia para uma festa com “jujuba, bananada, pipoca etc”. A música em questão, Não É Proibido, foi a única inédita do show. A letra fala ainda em “mandar um e-mail pra Joana vir”. Huuum, dou um doce pra quem adivinhar que Joana é essa que ela está esperando.

Marisa Monte

No entanto, gostei mais das músicas velhas mesmo. Não tem jeito. Já estão entranhadas na nossa memória afetiva. Acho que todo mundo já teve alguma canção de Marisa como trilha. E não falo apenas dos casais apaixonados. Mesmo os encalhados podem se sentir representados (Dança da Solidão e Segue o Seco são auto-explicativas).

>>> As fotos que ilustram o post são da primeira turnê de Marisa no Japão, em 1992. São do International Press. Se alguém testemunhou o evento, por favor, deixe seu relato.



De parar o trânsito

15 de Abril de 2007

Você lembra dos flashmobs, certo? Sim, aquelas performances rapidinhas, combinadas por e-mail, que estavam na moda há 4 anos. Valia tudo. Soube até de maluquices como “todo mundo com um guarda-chuva aberto dentro do McDonald’s da Avenida Paulista”. Na hora e no lugar marcados, lá estavam os irreverentes com seus guarda-chuvas em punho. Sem nenhum caráter de protesto, frise-se. A galera só queria diversão. E, quem sabe, alguns minutos no noticiário.

Enfim, hoje a coisa anda esquecida e, por isso mesmo, fiquei impressionado ao ver algo do tipo aqui no Japão (onde qualquer tipo de desordem ou mobilização popular não é muito bem visto). Protestos e greves são raríssimos e, ainda assim, são cuidadosamente planejados para que não causem muitos transtornos à população.  

O vídeo não precisa de muitas informações para fazer sentido (se é que faz algum), mas deixo um pequeno glossário para quem não vive por aqui e nem é tão ligado na (sub?) cultura japonesa.

Akihabara. Distrito de Tokyo, é cenário do vídeo. É a  Meca dos aficionados por aparelhos eletrônicos e por mangás, animês, games etc. Além da infinidade de lojas, há cafés e restaurantes, nos quais os clientes podem se vestir como seus personagens favoritos. Eles são atendidos por garçonetes também caracterizadas.

Cosplay. Contração das palavras em inglês costume e play. É o ato de se vestir como personagem de animê, mangá ou videogame. Hoje, o termo abrange também pessoas que se vestem como cantores,  personagens de TV ou de cinema.

Otaku. Tem um sentido bem próximo do termo “nerd“, inclusive na carga pejorativa. São pessoas que amam novidades tecnológicas e veneram tudo referente a animês, mangás etc. Vale esclarecer: um otaku não é, necessariamente, um cosplayer.

Policiais. Desmancha-prazeres, pelo menos no que diz respeito a essa performance. Ou seriam mais dois cosplayers inspirados em séries como Chips? Hum….Ok, reconheco, eu forcei.

P.S. Em tempos de marketing viral, fico com uma pulga atrás da orelha. Não seria tudo uma armação orquestrada pela rede norte-americana Mr.Donuts, cuja fachada aparece ostensivamente no vídeo? 



Muito Barulho Por Nada

5 de Abril de 2007

Espinhas no rosto, hormônios em ebulição, pais e professores que não entendem: ser adolescente nunca foi fácil, mas para os emos a coisa anda um pouco mais complicada.

Em tempo, “emo” é a abreviação de “emotional hardcore”. A princípio usado para designar um gênero musical derivado do punk, o termo virou sinônimo também de uma tribo de adolescentes que curtem músicas pesadas, com letras sobre depressão e amores frustrados.

Visualmente, os emos podem ser reconhecidos pelas roupas pretas, pelo uso de lápis preto nos olhos e por uma franjinha escorrida jogada para um lado do rosto. Mas não os confunda com os góticos. O habitat natural dos emos são shopping centers e casas noturnas
descoladas. Cemitérios, nem pensar.

As principais bandas emo hoje são as norte-americanas Simple Plan, My Chemical Romance, Panic! at the Disco e Fall Out Boy. No Brasil, os destaques são CPM 22, Fresno, Hateen, Forfun e Emoponto. Vale
lembrar que muitas bandas não aceitam o rótulo, por considerá-lo pejorativo ou abrangente demais.

A propagação do gênero incomodou outras tribos, como a dos punks mais radicais e a dos indies (que gostam de bandas alternativas, pouco conhecidas). Os detratores alegam que o som é “punk de butique” e que os emos são “modistas e chorosos”. Bem, na verdade, os adjetivos mais comuns não podem ser publicados aqui.

Mas só vaiar não é suficiente. Os emofóbicos também costumam atirar garrafas plásticas nas bandas em festivais de rock. A hostilidade também atinge os fãs, que costumam ser ofendidos nas ruas e na internet. Ironia: há quem acredite que a perseguição esteja ampliando o séquito do emos, pois ajuda a firmar a imagem de que são incompreendidos e marginalizados.

Infelizmente, essa guerra civil no rock parece longe de um cessar-fogo. Nessas horas, confesso, me bate uma inveja danada dos meus pais. Eles curtiram Beatles, Rolling Stones e Roberto Carlos sem se preocupar com rótulos ou rixas entre tribos. Em tempos de ditadura,
essa complicação adicional era mais do que dispensável.

>>> Calúnia publicada em novembro de 2006.



Pra não dizer que não falei das flores

3 de Abril de 2007

Nas minhas andanças pelo YouTube, tropecei no trailer desse filme que está em cartaz agora no Japão. Chama-se Byosoku 5cm e tem um pouco a ver com essa entrada de primavera, cerejeiras etc. Mas falo mais do filme e das cerejeiras numa próxima oportunidade, ok?

Para mais imagens do filme, clique aqui.



Nem Às Paredes Confesso

1 de Abril de 2007

Hoje em dia, fala-se abertamente sobre tudo. Se você é uma celebridade, basta chamar um jornalista e soltar o verbo. Se você é um mortal qualquer, só precisa abrir um blog ou escancarar tudo no seu perfil do Orkut. Mas mesmo em tempos tão liberais como os nossos, alguns tabus persistem. E são sobre eles que falarei na coluna de hoje. Sobre os prazeres que não ousamos revelar a ninguém. Seja por pudor, preconceito ou hipocrisia. Será você um reprimido? E quais seriam seus prazeres inconfessáveis?

Calma, você não está lendo a coluna errada. Nem eu incorporei o Dr. Jairo Bouer. O assunto é música mesmo. As músicas que dizemos odiar. Os artistas que juramos desprezar. Mas que ainda assim nos provocam um prazer involuntário e secreto. Daí você se pega cantarolando aquela música “breguíssima” e, ao primeiro olhar de reprovação de um amigo, defende-se rápido com aquela velha desculpa: “ah, tocou tanto nas rádios! Não tem como não saber  cantar.”

Outro caso típico: será você daqueles que só aceitam um prazer inconfessável quando alguma vaca sagrada empresta respeitabilidade ao leite “profano” dos outros? Daqueles que acham que quando Caetano Veloso canta Peninha “vira OUTRA coisa”. Quando Legião Urbana canta Menudo “é TOTALMENTE diferente”. Quando Titãs regrava Mamonas Assassinas “MUDA TUDO”. Huuum….sei.

Que fique bem claro, não estou aqui julgando ninguém. Até porque também tenho meus prazeres culposos (muitos, aliás). A diferença é que pouco a pouco vou confessando esses “pecadinhos” (em rodas de amigos, por exemplo) até que a culpa desapareça e fique apenas o prazer.

Por quê você não experimenta? Comece cantando alto qualquer música do Roupa Nova. Isso, aposto que o refrão de “Coração Pirata” está intacto na memória. E se algum amigo olhar feio, já sabe: não se intimide ou apele para desculpinhas batidas. Depois me escreva para dizer se você perdeu o pudor. Ou o amigo.

* termos como “breguíssima”, “profano”, “pecadinhos” aparecem entre aspas porque quando o assunto é pop tudo isso é muito subjetivo. Ou deveria ser.

>>>Confissão publicada em setembro de 2006. Perdi muitos amigos e leitores desde então. Cala-te boca!



Chega de Saudade (e de mesmice)

29 de Março de 2007

Eu gostaria de postar material novo para o blog, mas as coisas andam meio corridas por aqui. Sim, vou postar mais um “calúnia” (como chamo, carinhosamente, minhas colunas semanais no jornal).  Esta foi publicada em setembro de 2006. >>>

Sempre ouvi falar que bossa nova foi uma espécie de unanimidade entre expatriados brasileiros. Dizem que exilados políticos encontraram conforto na bucólica mistura de samba e jazz criada por João Gilberto e Tom Jobim. Dizem ainda que o gênero sempre foi subestimado no Brasil e que só ouvidos privilegiados (educados no exterior, de preferência) saberiam valorizar  “a música brasileira de qualidade?.

Bom, sinto desapontá-lo, mas não vou fazer coro com o que essa gente diz, não. Sempre me incomodou o ritmo, digamos assim, pacato demais da bossa nova. E sempre me aborreceu ainda mais o comportamento xiita e elitista de muitos apreciadores do gênero, que costumam desancar tudo mais que é (ou foi) produzido no Brasil.

Talvez uma temporada de quatro anos no Japão consertasse minha visão sobre isso, mas não aconteceu. Pelo contrário, a onipresença da bossa nova em lugares como cafés, livrarias e lojinhas pretensamente sofisticadas daqui aumentou ainda mais o meu enfado. São sempre as mesmas canções regravadas pelos mesmos artistas com variações mínimas. Mais cansativo, impossível.

Por isso, cada vez que me bate uma saudade do Brasil, não é bossa nova que me vem à cabeça (e ao CD player). Tenho certeza que com você não é diferente. Portanto, no que diz respeito a música brasileira, essa coluna deve dar descanso à garota de Ipanema. E manter olhos e ouvidos atentos para qualquer outra novidade que venha dar à praia.

>>> A reação dos leitores foi mista. Uns concordaram com a questão do repertório manjado. Outros reclamaram da banalização do gênero, promovida pelas cafeterias mundo afora (e Japão adentro, principalmente). Mas a maior surpresa foi que muita gente (nem xiita, nem elitista) disse gostar muito da “garota de Ipanema”. Como diria Sérgio Reis, “não interessa se ela é coroa”, hehe. Mas coroa por coroa, eu prefiro essa do vídeo abaixo. Igualmente carioca da gema, aliás. Pena que a qualidade de imagem deixe a desejar.



Para que serve um crítico?

25 de Março de 2007
icon for podpress  Common People - Pulp: Reproduzir

“Não dou importância para críticos de música ou cinema. São todos aspirantes a artistas frustrados?, disse uma amiga no meio de uma discussão acalorada. Eu, que então nem sonhava em escrever sobre música, consenti melancolicamente. Embora, no íntimo, discordasse da generalização.

Até entendo porque tanta gente pensa como minha amiga. Os jornais e revistas estão repletos de críticos que parecem gostar de holofotes tanto quanto os artistas que retratam. E, espertos, sabem que a forma mais fácil de se destacar é mesmo sendo do contra. Ou seja: se tal disco vende bem é sinal de que a gravadora tem um esquema de marketing pesado, o artista é sofrível e o público tem cabeça de vento e ouvido de penico.

Uma série de meias-verdades que não ajudam o leitor em nada. Não raro este deve abandonar a resenha já no título e seguir para o horóscopo, pois sabe que ali a chance de alguma coisa “bater? é maior. Com razão, já que a astrologia quase sempre se mostra mais sábia do que o estrelismo do crítico “cabeça”.

Enfim, meu compromisso nessa coluna é tentar driblar a vaidade, a inveja e o rancor que costumam contaminar o meio. É tornar esse espaço cada vez mais democrático e diversificado. Para tanto, preciso da ajuda de vocês. Escrevam para sugerir, opinar, cobrar, xingar ou elogiar. Prometo responder cada e-mail atenciosamente e levar suas idéias em conta. Mas se preciso, insista. Isso porque posso ser um bocado teimoso. Coisa de crítico? Nada! De taurino mesmo.

Coluna de estréia no International Press, publicada em agosto de 2006.



Vamos Virar Japonês - parte 2

20 de Março de 2007

Mais videoclipes inspirados na cultura japonesa. Ou seja, mais gueixas. Nem todas iguais, no entanto. Hoje, acredite, tem até uma gueixa de bigode!

Once Upon A Time (2007), Air. O duo francês foi responsável pela delicada trilha de Encontros e Desencontros (Lost in Translation). No novo disco, ainda maravilhado pela cultura nipônica, o Air incorporou o koto (uma espécie de harpa japonesa) e o shamisen (um instrumento parecido com um banjo). Tudo aprendido com um mestre de Okinawa. No videoclipe, vemos uma gueixa tocando o shamisen, com seu quimono criando um belo efeito de luzes e texturas.

Read My Mind (2007), The Killers. Monte Fuji, placas luminosas, casas de jogos eletrônicos e bicicletas não poderiam faltar no cenário, claro. Mas o bacana no vídeo é que a banda interage, de fato, com os nativos: sejam eles crianças do primário, Gachapin (um bichano verde, ídolo de programas infantis) ou um sósia de Elvis Presley. O momento “pô, não precisava? vai pros integrantes vestidos de gueixas. O travestismo acanhado de Brandon Flowers provoca saudades de Freddy Mercury - de quem, provavelmente, o rapaz tirou a inspiração para o bigode. Ah, repare no famoso hotel-cápsula. Não é tãããão apertado quanto dizem: como o clipe demonstra, cabem uma pessoa e um boneco verde gigante.



Even Better Than The Real Thing (???)

13 de Março de 2007

O Emerson, um espirituoso blogueiro, lançou uma teoria de que para todo o brasileiro, há um sósia japonês. Comprova sua tese com fotos impressionantes de um Ferreira Gullar e um Galvão Bueno “made in Japan”. Tempos depois, o tal sósia do Galvão se tornaria primeiro-ministro daqui - aliás, digamos que em termos de nacionalismo, eles têm afinidades. A Karina, outra blogueira afiada, aprofundou a teoria, lembrando que ela vale para outras nacionalidades também.

Agora, modestamente, apresento mais uma teoria: a de que para ser sósia (pelo menos na televisão japonesa) você nem precisa parecer tanto assim. O que vale é a intenção e a habilidade para fazer caras e bocas. O resto fica por conta dos maquiadores, dos figurinistas e da imaginação da platéia.

Minha evidência é essa cover de We are the World exibida há algumas semanas num programa de sósias daqui. Tudo muito divertido, mas só mesmo com muita imaginação (e a ajuda de um telinha ao lado) para associar o Bruce Springsteen original com o de mentirinha. E o que dizer do “Stevie Wonder”? Minha favorita, no entanto, é a “Tina Turner”, que me fez mais lembrar da Tina Pepper (Regina Casé na novela Cambalacho) do que da cantora americana. Agora é sua vez, caro leitor. Qual o seu sósia favorito nessa pungente homenagem aos nossos ídolos do passado? 



Even Better Than The Real Thing

12 de Março de 2007
icon for podpress  Amy Winehouse - You Know I'm No Good: Reproduzir

eu

by Tako X





Gustavo Eto é colunista de música no jornal International Press. Estudou publicidade no Brasil, e no Japão já apertou parafusos, entre outras coisas. Adora música e cinema, mas não curte filosofar a respeito.

Contate o autor
Busca no blog